Xeque mate de Putin ao Ocidente
Nunca é demais relembrar Clausewitz – A guerra é a continuação da política por outros meios.
Todas as guerras e conflitos, são sempre despoletadas pelas políticas do poder reinante, nenhuma guerra ou conflito, deflagra do poder civil, a sociedade civil é a segunda baixa dos conflitos, senda a primeira baixa da guerra, a verdade.
Retirando o fulgor militar aos conflitos em curso, e analisando o que a política nos reserva ainda, podemos naturalmente ler entrelinhas, os meios e os objectivos políticos. A vitória militar, sem a vitória política é uma derrota total.
O conflito na Europa, vem desde o início de 2000, a ser preparado, os extremos políticos entre as potências dominantes, tem sido cuidadosamente delineado, por um lado a supremacia ocidental, por outro a recuperação económica e militar da jovem Federação Russa. A rápida incursão ocidental na Europa de Leste, através da expansão da OTAN, era e continua a ser, o perigo da derrota política russa, caso se concretizasse sem algum tipo de travão. A jovem Federação Russa, na primeira metade deste século, encontrava-se num impasse político-económico, bem como militar, longe de se equiparar á supremacia ocidental, sem um plano ou um acontecimento que desviasse a atenção ocidental para fora da sua vista, o desfecho na Ucrânia seria diametralmente oposto ao actual.
As políticas criam as guerras, e as guerras criam novas políticas, é um ciclo de acontecimentos complexos, as políticas determinam os fins, as guerras usam os meios.
Os últimos 20 anos, são importantes para se clarificar o momento actual global, que está longe de se resolver, no entanto, mantenham em mente que, quer um lado, quer o outro já definiram objectivos.
Em 2001, no dia 11 de setembro, eclode um acontecimento que mudaria o curso da história ocidental, o ataque ás torres gémeas, é tudo menos fortuito, é um acto deliberado e planeado, foi um acto político e não terrorista. Com a mudança de paradigma nas políticas ocidentais, voltando-se para o suposto combate ao terrorismo, e a cronografia de acontecimentos é interessante, no final da década de 90, e início de 2000, a ordem político-militar do ocidente, empregava-se em dois campos de batalha, na Europa com a incursão nos Balcãs, na Geórgia e na Chechénia, e simultaneamente no Iraque e no Afeganistão, alargando se posteriormente á Líbia e á Síria. A Federação Russa, foi neste período, alvo de uma relativa paz (não obstante dos conflitos na Geórgia e na Chechénia de menor escala, comparativamente ao seu opositor OTAN). Este período, de relativa calma militar, foi preponderante em termos políticos e económicos, em contrapartida o Ocidente investiu biliões, desestabilizou-se internamente, com o desvio massivo de recursos para as frentes de batalha, que as viria a perder todas, quer militar, quer politicamente.
O combate ao terrorismo ocidental (infrutífero e inútil), permitiu ao governo russo, estabilidade, e o abrandar das incursões militares em território europeu, trouxeram a tal paz relativa, necessária para reestruturar política e economicamente a Rússia. Durante vinte anos, a estabilização das políticas externas, pela diplomacia e não pelas bocas de canhões russos, construiu uma intrincada rede de influência no mundo, não só pelo BRICS, mas também pelas diversas alianças diplomáticas no médio oriente.
A aproximação sino-russa é a maior evidência de que a diplomacia funciona, sem a força de armas, e no estricto planeamento estratégico mútuo, a potência industrial (China) e a potência energética mundial (Rússia), juntam se numa simbiose de ganhos equitativos, a economia russa cresce, e a capacidade industrial chinesa adquire a energia de que necessita para prevalecer dominante. E não é de pouca monta este acontecimento, da mesma forma que o 11 de setembro permite a oportunidade para a Rússia se estabilizar no palco europeu, a ligação com a China permite a estabilidade económica. Dois factores de extrema importância, para quem deseja travar uma guerra – estabilidade política e económica. As bases para o conflita na Ucrânia, estavam deste modo assegurados, a vitória Russa era uma certeza, como diariamente se comprova. Por outro lado, o Ocidente desestabiliza-se internamente, com as políticas energéticas, com a desindustrialização, e em termos externos (diplomacia) perde o controlo do Médio Oriente, uma fonte de energia fluída, necessária ao complexo industrial ocidental, especialmente americano. Os custos inerentes do combate ao terrorismo no Medio Oriente, estão longe de proporcionar lucros satisfatórios ao Ocidente, o balanço económico é negativo.
Em termos concretos, é a política que define a guerra, nas suas várias formas, a guerra económica, a guerra política e a guerra na sua melhor concepção, o uso da força militar, já em termos abstractos, é o poder militar que define a guerra política.
Nestes últimos 30 anos, o mundo tem sido governado pelo poder militar (ou como se bem comprova hoje, a sua ilusão de poder) americano, e as políticas têm sido conduzidas através desse desígnio, pela força. A diplomacia do equilíbrio político-militar da hegemonia ocidental, é a do uso da força e da extorsão, através da força militar, a política ocidental é a rede intrincada de políticas de subjugação e de imposição, que desembocam sempre no uso do aparato militar.
O Ocidente cedo percebeu, que a política pela força, determina a guerra económica. As sanções económicas e as crises sociais, são determinantes para as políticas ocidentais. As mesmas, criam os palcos de guerra perfeitos: a desestabilização económica e social das sanções, as lutas pelo poder interno e a fechar com chave de ouro, as invasões ocidentais e o controlo militar de recursos. A perpetuação do uso militar ocidental é paralelamente o garante da vitória militar e política, ou essa é a ilusão que se estabelece.
O eixo Sul Global percebeu que a hegemonia ocidental, assente na força militar, é falível e pode ser derrotada, mas a luta do intelecto vs a força, é demorada.
Os custos para ambos os contendores são imensuráveis, na batalha política e económica, e são bem mais devastadores do que qualquer conflito armado, e no fim, antes mesmo do soar dos canhões, a força perde o seu fulgor para o intelecto, massacrado pelo recuo dos canhões usados pelas políticas abusivas e pelas restrições desumanas ocidentais.
Neste campo, da política e da economia, esgotada que se encontra a força ocidental, o Sul Global emerge do abismo, estruturado e pronto para a derradeira batalha, o conflito armado, a política sucumbe sempre aos canhões.
É notória a vantagem Russa em todos os campos, e não, o grande vencedor desta confusão tremenda em que o mundo mergulhou é a Federação Russa e Putin, a China, muitas vezes apontada como a grande vencedora, não o é de facto, nem poderia ou puderá ser. A China é uma potência industrial, mas não uma potência energética, nem reúne em si, essa mesma possibilidade, a China é refém da energia, sem energia acessível, nenhuma potência industrial sobrevive, por seu turno a Rússia, pode de facto se transformar também ela, numa potência industrial. Aliás, se assim o desejar, a Federação Russa reúne em si mesma três factores importantíssimos – a autossustentabilidade energética; a capacidade industrial e o poder militar absoluto, nenhuma nação no mundo reúne tão exemplarmente estas três características, nem duas a solo mesmo. No campo diplomático a Russa joga com as suas regras, estabiliza através da China o Irão e a Arabia Saudita, e note-se mesmo antes de resolver o conflito sino-indiano!!!!, nada é por acaso, tomem nota disso.
Deflagra o conflito sobre a Palestina, mesmo a tempo de deixar a Ucrânia ao seu destino pré programado, a capitulação total e a reeleição de Putin como o todo poderoso da Rússia, na Palestina, que era um problema em suspenso, mina se por completo a hegemonia no Medio Oriente, Israel um Estado baluarte do Ocidente, afinal não é invencível, e o Irão é um adversário a temer, afinal o aliado russo no médio oriente, fustigado pela força das sanções ocidentais, é tal como a Rússia uma potência mal avaliada. Se uma derrota humilhante na Europa, é suficiente para tremer a presidência norte-americana, duas seguidas antes das eleições, serão provavelmente um terramoto na escala 9.9 de Ritcher. Na Palestina só um de dois destinos será alcançado: a derrota política de Israel, ou a aniquilação total Israelita, resta ao Ocidente escolher como irá perecer, de pé ou de joelhos. Este conflito é importante para a consolidação russa, não pela intervenção directa, mas pelo apoio aos aliados, queres um amigo para a vida, não o apunhales nas costas. Todos sabem que as decisões iranianas, são na verdade, as decisões que a Rússia deseja, a Rússia é o estratega, o Irão o corpo táctico.
Com isto, resta nos esperar pelo desenrolar dos acontecimentos na América do Sul, e especialmente na Guiana, duas forças se irão medir naquelas bandas (por causa daquelas terras). Entre a Venezuela, aliada de Putin e o Brasil, um estado globalista BRICS, que está mais perto da porta de saída, do que permanecer na nova ordem mundial, ainda é cedo para "análises", mas o derrotado já tem nome.
Voltando ao palco europeu, com o descalabro na Ucrânia, resta o atear de fogos de pouca monta, Roménia e Moldávia são um desses fogos, não será uma Ucrânia, meia dúzia de meses e assunto resolvido. Com a Europa Ocidental em clara recessão, mais cedo do que tarde, a agitação social abrirá caminho para um novo desfile do Exército Vermelho em Berlim, desta vez o Exército diplomata Russo, os tanques e o aparato militar "soviético" ficam em Moscovo.
Valter Marques