O fim está perto

17-08-2023

O mundo unipolar, que impôs a ordem no mundo depois da II guerra Mundial, está, como tudo na vida, a terminar.

Luckács, afirma que "o presente tem de ser correctamente interpretado, a fim de que se torne possível compreender a história dos tempos que lhe se antecederam."

Não deixa de ser curiosa esta afirmação, vindo de alguém que como eu e muitos hoje, nasceu em um século e morreu em outro, mas a curiosidade não reside no facto de atravessar literalmente dois séculos, mas sim no facto de dar a devida importância ao presente, para compreender o passado, porque na realidade, vivemos o presente com o que o passado nos deixou.

A unipolaridade do mundo nunca funcionou, nunca uma grande potência mundial, conseguiu mais que um punhado irrisório de séculos, em que se constituiu parcialmente dono do mundo, o passado nunca deixou que, o presente de alguém funcionasse dessa forma, existiram naturalmente potências que dominaram partes do mundo, mas esse domínio nunca foi absoluto, pelo que, o unipolarismo não se discute, destrói-se pura e simplesmente.

É necessário interpretar correctamente o presente, ou corremos o risco de ficar prisioneiros da ignorância, e falharmos a construcção do futuro, porque o presente é isso que trata, da construcção do futuro, mas um presente assente na ignorância, perpetua se e não constrói futuro algum.

A guerra na Ucrânia é mais do que a simples ideia, de uma guerra no sentido clássico de um conflito armado entre nações e com objectivos de supremacia militar, política e económica. A actual guerra no leste europeu, é o confronto puro e directo de dois mundos distintos, o mundo ocidental unipolar e o resto do mundo multipolar, pelo que entender esta guerra entre bons e maus, é o primeiro erro capital do ocidente unipolarizado, não interpretar correctamente o presente, obriga o ocidente a ignorar o seu passado, algo que neste século temos sido exímios alunos, e com isso formamos ignorantes que se deliciam a viver um presente sem fim, naturalmente sem perspectivas de algum tipo de futuro.

Presentemente a sociedade ocidental recuou tanto na evolução, que brevemente seremos novamente o Império Romano, já estamos na iliteracia, os povoados (nações) estão ao abandono, e os povos (sociedades) vivem de esmolas sistemáticas e em guerras fúteis. Não que o Império Romano fosse multipolar, não o era, mas consolidou a multipolaridade durante 5 séculos, a unipolaridade do Império Romano foi a sua maior derrota.

De volta ao presente, o futuro constrói se com o presente, e o presente só é possível com o passado, e entender esta dinâmica é hoje, uma tarefa digna dos Deuses do Olimpo, tal é a falta de conhecimento e de entendimento que a sociedade ocidental se submete.

A verdadeira guerra actual, é a guerra da sobrevivência de uma nova ordem mundial, e este tipo de conflicto, vai mais além do que os escritos de Sun Tzu ou Clausewitz, são as duas doutrinas elevadas à potência máxima, a morte que provocam são no espectro geral, danos necessários de eficiência, é o utilizar dos meios e recursos, para atingir o fim desejado.

Por todo o lado, em especial no ocidente, se clama pela aniquilação da Rússia e pela vitória da Ucrânia, este é o espelho a ignorância do ocidente, primeiro porque não conhecem o passado, não compreendem o presente, e não fazem a mínima ideia de um singelo futuro a construir.

O tempo não favorece os audazes, favorece quem conhece o tempo e com ele planeia o seu futuro, nem a sorte a bem dizer, a sorte não é fruto do acaso, é fruto do planeamento.

A URSS não se constituía somente em um aglomerado de federações, Stalin quando projectou a URSS, fê-la para manter a Europa separada da Rússia, uma zona tampão que impossibilitasse uma nova guerra na planície europeia, a URSS era primeiro que tudo, um meio militar, que durante o seu nascimento (1922) George Clemenceau, primeiro-ministro francês na época, apelidou de cordão sanitário, com o intuito de separar a europa ocidental dos bolcheviques.

A tentativa falhada do ocidente em conquistar o império russo na I Grande Guerra e na revolução de 1917, a eclosão da II Guerra Mundial e o esforço do ocidente em conquistar a Rússia, através da Alemanha nazi, levaram novamente a Rússia a planear a longo prazo a sua integridade, a URSS foi e continua a ser a grande vitoriosa na II Guerra Mundial, algo que a demência ocidental não entende.

De 1945 a 1991, a grande planície europeia não viu mais nenhum confronto bélico de escala mundial, foi com o desmembramento da URSS, que em 1992 o ocidente lança uma guerra na Bósnia por 3 anos, incita a revolução na Geórgia, que terminou com a intervenção militar russa e o controlo russo da região, na Sérvia e Kosovo que ainda estala de vez em quando, e o último grande confronto armado, iniciado em 2015 na Ucrânia.

Este será o último grande confronto dos idiotas unipolares, na Ucrânia morre o problema do mundo, a hegemonia ocidental, para bem da sociedade assim será.

Uma morte é de lamentar, milhares são estatística (Stalin), e assim se confere legitimidade ao proferido, alimentar um conflicto bélico, é primeiramente pintar uma obra de arte, a guerra é uma forma de arte, que por natureza consome todos os recursos ao seu redor, e que no fim, esgotados que estão esses recursos, nem está pronta a pintura, nem ninguém existe para a contemplar, a guerra consome o bem mais precioso que existe, vidas. Todavia, é política ocidental, esse fornecer de recursos por um lado, e apelar à paz por outro.

Não se busca paz alguma, mantendo a guerra, especialmente se existir uma cegueira incurável no conhecimento e entendimento do caso. Por norma, a Paz obtém se por acordo através da diplomacia (a Paz de vestfália por exemplo) ou pela vitória militar e o completo saneamento de recursos da contra-parte, a II guerra Mundial é esse exemplo, e esta não será diferente.

A falta de compreensão do presente no ocidente, leva a falhas de planeamento brutais para o futuro, na realidade nada funciona no ocidente, ao contrário da China e da Rússia, exímios planificadores, com estratégia de longo prazo, e compreendendo o tempo, tacticamente correctos.

Na década de 70, numa reunião entre Kissinger e Mao, com vista à aproximação dos EUA à China, Taiwan era um problema sensível para chineses e americanos, mas Mao desmitificou o assunto, respondendo a Kissinger "Taiwan é um problema efectivamente, mas para quê discuti-lo agora? Taiwan tem 60, 70, 80 anos para ser resolvido, e por essa altura, regressará a casa. Não percamos tempo com isso agora".

Deposta a hegemonia ocidental, vai nos faltar na mesma futuro, não que seja impossível, mas porque existe essa impossibilidade nata na sociedade ocidental, um presente perpetuo, o novo terceiro mundo.

Valter Marques

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